sábado, 9 de julho de 2011

Intento desmotivado


Dó da pena que não cai
Esvaece
Contento que passou e ficou
Ato sucumbido
Sacramentado pela crença
velada
Sentida pelo insosso
verbo sem ação
Apenas
Mais uma
que é nenhuma
Sem nunca
Sem mais.

Natália Possas

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O jeito de tocar o chão era
Muitos
Muitas
e tantos mais.

Eles são busca que vai se revelando,
novidades,
sentidos diferentes...

Um Andar não conhece o outro.
Não sabe o cheiro,
o toque do sorriso,
nem o peso das lágrimas.

Ela também não sabe.
Não os inventou.
Eles vão se criando,
contam a ela quem são.
Se mostram.

No chão que atrai a atenção de todos
Eles vão sem ela até o fim.
Depois desaparecem
e Seu rastro está guardado nas imagens
de quem foi tocado por Eles.

Então a Atriz volta pra casa.
Sozinha.
Mais uma vez.

Natália Possas

domingo, 1 de maio de 2011

O poema sussurrou,
pediu palavras suaves,
acalmou os Olhares molhados.

Dois Sorrisos guardados pediram canção de ninar.
Histórias que sabem seu rumo
sem saber as ruas.

Direções singulares
em busca de palavras que vivem
e deixam viver...

Os Olhares molhados só precisavam de Olhares que abraçam.

Natália Possas

terça-feira, 26 de abril de 2011

As lágrimas descansaram o sorriso.
O caminho da artista pesou.
Sentiu a força do que os outros não vêem,
do que os outros, sem saber, precisam que ela entenda.
Ela sabe o que precisa fazer.
Mesmo sem saber.

Os olhos do céu piscaram.
Deram aval às palavras.
As estrelas se uniram em manto
pra acalantar as sensações.


Natália Possas

quarta-feira, 9 de março de 2011

O sol abriu espaço na nuvem gigante em cima da janela. No meio fio, as crianças aprendiam a se equilibrar. Do outro lado, o cachorro chamava o dono emprestado, que nunca o alimentava. No caminho pra onde o movimento acontecia, o ritmo estava mais lento. Havia menos pés, menos direções. O cheiro era da chuva que passou. O som desacelerava o compasso, e as frases dessa vez eram em uníssono.

Essa foi a minha ida ao banco, na quarta-feira de cinzas.

Natália Possas

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Educação promissora

Prova, vestibular, questões objetivas, discursivas, metas, horários de estudo... Mas ele só tem 12 anos! Ótimo, quanto mais cedo melhor. É importante que as crianças, desculpe, os pré-adolescentes entrem no ritmo e se adaptem a ele. E se não souberem qual curso escolher, é só procurar um que tenham condições de passar.

Estamos produzindo, em larga escala, mão de obra qualificada em fazer provas. Mas e o raciocínio criativo? Ah esse a gente só precisa quando fala de arte. Afinal aprendemos desde cedo que esta não é uma área de conhecimento e sim um suporte para as disciplinas oficiais. Então o que é importante? Bom, alguns loucos dizem que é a educação pautada no desenvolvimento pessoal e social, que a riqueza não está em metas capazes de disciplinar um soldado que aprende como fazer o maior número possível de questões em menos tempo, e sim em saber compartilhar conhecimento sem receita pronta, estimulando o raciocínio, a capacidade crítica, criativa, e que é imprescindível fazer com que o aluno saiba ser um indivíduo social com laços de respeito, amizade e não apenas alguém que enxerga números ao invés de pessoas. Alguns mais doidos ainda se aventuram em dizer que a escola não deve ser uma indústria.

Mas e o vestibular? E o mercado de trabalho que quer nos engolir? E a necessidade de competição? As pessoas correm, tem pressa, o estresse hoje é permitido, tem o aval da sociedade. E quem não tem compromissos suficientes para estar estressado não se enquadra no padrão de sucesso.

Mas o que é sucesso? Bom, as definições atuais prezam pelos números. Vai aqui uma receitinha passo a passo para se enquadrar nos moldes: com urgência você deve ter vários telefones sempre ligados, internet on o dia todo, uma carga de trabalho que não lhe permita ter vida social e que mesmo assim, você não dê conta de cumprir todos os compromissos. Opa, agora você está quase lá. Se conseguir isso antes dos 23 anos está perfeito! Ah, e nunca se esqueça, quando alguém lhe perguntar sobre sua vida pessoal, tenha sempre na ponta da língua a resposta: o meu trabalho está em primeiro lugar!

Vencida esta etapa você está apto a se tornar um ser estressado. Aqui começam seus direitos e alguns privilégios, como, não precisar ser simpático, não se preocupar com a opinião e o bem estar de outras pessoas, nem dar atenção à família e amigos. Isso é bem tranqüilo: é só pensar que você tem motivos suficientes que lhe permitem ser assim, e por isso o resto do mundo precisa entender e lhe respeitar mais.

Mas, como tudo na vida tem reações adversas, nessa etapa você pode sentir algumas palpitações, desconforto, um peso muito grande nos ombros, entre outros sintomas. Mas aí basta tomar um remedinho antes de dormir que tudo se resolve, e ninguém vai lhe criticar por isso, pois esse direito foi conquistado com muito suor.

Parabéns! Se continuar nessa produção, em pouco tempo você vai se enquadrar nos padrões de sucesso e excelência profissional e consequentemente, todos terão orgulho desse número, quero dizer, desse indivíduo brilhante. Além disso, você terá acumulado uma renda que lhe possibilitará uma condição luxuosa, que certamente sua família aproveitará muito por você. Afinal, eles precisam suprir a sua ausência de alguma maneira. Então, só me resta desejar sucesso!

Natália Possas

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Oração tecnológica

Ave tecnologia cheia de graça... Cantora virtual fazendo sucesso no Japão, atriz robô, carros que dispensam o motorista, seleção com técnico virtual, e um robô que ainda precisa de uns ajustes, mas seu abraço... ah, parece o de uma pessoa de verdade. Este último, segundo o criador, servirá para encurtar a distância entre indivíduos que não podem se ver. Há um tempinho atrás as pessoas abraçavam ursos de pelúcia, e por incrível que pareça, abraçavam também outras pessoas. Mas, como tudo tem que evoluir, “que venha toda essa tecnologia”. Foi o que disse a apresentadora do jornal após entrar uma matéria sobre o assunto. De acordo com a matéria, a palavra da vez é “substituir”. Bem, se a regra é essa, nós pobres mortais não podemos decepcionar. Ficar em segundo plano? Parados no tempo? Nem pensar!

Claro que a tecnologia não é ruim. Pelo contrário, é indubitável que os avanços são benéficos. O problema é quando paramos de nos preocupar com pessoas, quando perdemos as referências e queremos sempre mais, mesmo sem saber para onde estamos indo. Com tanta cantora no mundo pra quê eu quero uma que não existe? Se bem que há muitas de carne e osso que também são fabricadas. Alguns aceitam se transformar em produtos, outros aceitam comprar... Então, um dia uma fada chega e deixa tudo mais real. E questionar isso dá um trabalho... Bem, na verdade parar pra pensar no assunto já é chato. Ah, deixe sua vida mais tranqüila, não se exalte com essas besteiras, aproveite as vantagens que isso pode lhe possibilitar.

E a coisa vai ficando cada vez mais interessante: o robô dito atriz fez uma peça de teatro no Japão. Uma artista humana, ao invés de subir ao palco ficou em uma sala dublando e transmitindo suas emoções para a nova colega de profissão. Qual a utilidade disso? Ah sim, devemos nos adaptar e gostar das novidades. Afinal, é para isso que fomos programados. A não, desculpe, os robôs é que são programados. Será que eles dão conta? Claro, o ser humano é capacitado o bastante para fabricar algo que possa substituí-lo de forma eficiente.

Enquanto tudo acontece lá fora, que a tecnologia possa livrar-nos de todo o mal, Amém.

Natália Possas

domingo, 28 de novembro de 2010

Justificativa

Peço desculpas aos leitores e à todos que visitaram o blog nesse longo período sem novas postagens. Eu estava (e ainda estou um pouco) em uma correria completamente sem tempo pra escrever. Mas, a partir de agora voltarei a atualizá-lo com a mesma frequência de antes!

Estava com saudades de vir aqui!

Um grande abraço a todos!

domingo, 27 de junho de 2010

Encontros

Lá, onde eu não vi,
Lá, onde eu quero,
Lá, onde eu sinto.
Lá, onde a fama é santa...

Equipe em descobertas.
Necessidades em comum dos outros.
Ainda não sabemos.

Olhares que cantam sonhos.
Vontades que alcançam, onde os olhos não tocaram a terra.
Palavras que vão seguir nas mochilas sempre abertas.
Estradas buscando fala nas imagens.
Percepções pedindo experiências.

O que sabemos?
Histórias que a menina contou.
Queremos tanto...
Da montanha, nem graças nem clemências.
Apenas olhares que contam histórias.

Natália Possas

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bom Dia

O sol saiu tarde. Mas não deixou de clarear o dia. Por alguns instantes, ele aqueceu os sorrisos e fez carinho no rosto de quem estava triste. O vento fez companhia durante toda a tarde. Impulsionava quem estava cansado, e tornava mais leve e elegante o andar de todos.

Lila reclamou do frio. Essa foi sua única percepção naquele dia. Tentou escrever. Isso aliviava um pouco. Nada. Até que saiu um poema. Ela quase apagou, mas estava desmotivada pra isso.

À margem do que eu queria escrever,
Sinto.
Sei que não me quero mais.
Escrevo.
Penso no que sou.
Choro.
Não sou nada.
Agradeço o que tenho.
Tenho mais do que sei.
Tenho mais do que mereço.
Não sei nada.
Não faço.
Não peço.
Não sei.
Tantos merecem...
Tantos não têm.
Desperdício pra mim.

De tardezinha, uma chuva bem fina limpou a poeira das folhas, e dos sapatos de quem passava. Ela temperou a chegada da noite com cheiro bom, de terra seca recebendo o beijo das gotas de chuva.

Lila reclamou do penteado estragado. Esqueceu a sombrinha em casa. Nem era um penteado. Ela só secou os cabelos de qualquer jeito pela manhã. Mesmo assim praguejou a chuva.

A noite convidou o vento de volta. Ele chegou bem de leve, e soprou pertinho de quem estava agitado, pra refrescar, acalmar...

Lila colocou o cachecol. Vestiu o casaco pra espantar o frio. As roupas pesaram sua bolsa o dia todo. Lila mandou embora o vento, e todos os carinhos do dia. Hoje suas percepções estavam encapadas, lacradas. Deu um trabalhão esconder todas, mas Lila conseguiu.

Amanhã o dia vai se aprontar todo, outra vez, e mais quantas for necessário.

Natália Possas

quarta-feira, 17 de março de 2010

Bem necessário


O instante que não acontece mais.
Eternizado...
Registro do momento que foi.
Sentidos...

Lente - olhar.
Técnica - sensibilidade.
Precisão - paciência.
Instante - horas.

O olhar do fotógrafo
Fez o outro sentir arte.
A imagem grita!
Desperta sentido.
Pede atenção.

O instante passou,
Quase ninguém viu.
O fotógrafo sabe...
A foto contou pra ele.

Poema: Natália Possas
Foto: Ramirez dos Santos

domingo, 17 de janeiro de 2010

Simples assim


Bolinhas de sabão. Os meninos falavam que era coisa de menina. Mas Carlinhos adorava se divertir com as bolhas. Ele via que elas refletiam cores, e enxergava o mundo inteiro dentro delas. E não era uma simples brincadeira, mas sim, um jeito de ver o que ele não compreendia. Carlinhos fazia muitas bolinhas, de vários tamanhos, e ficava olhando todas voarem, até o vento beijá-las, pra que pudessem se abrir, e pingar no chão gotinhas de alegria . Essa era a resposta para as coisas que ele não entendia. Não contava pra ninguém, mas, o lugar onde as gotas caíam, era modificado pra sempre: tudo ficava cheio de cor e leve, como as bolinhas de sabão.

Natália Possas

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A praticidade da internet

Aquele e-mail foi decisivo! Mauro disse que não tentaria mais entendê-la. Laís franziu a testa. Ah, e quando ela faz isso... A moça da mesa ao lado foi saindo de fininho, e comentou a cena com um colega do escritório. Outros se aproximaram e a história cresceu. Ninguém sabia do que se tratava, mas no fim do dia, Laís havia recebido vários e-mails com palavras de apoio, dos amigos de trabalho.

Seu dia foi horrível. Por mais que buscasse distração, a frase vinha à cabeça e a raiva tomava conta. Depois, surgiu uma tristeza profunda, sentimento de perda e todos os sintomas de depressão, que ela havia lido numa revista feminina. Ah, segundo a tal revista também, o próximo passo deveria ser a vingança! Então, Laís foi às compras e voltou com um vestido vermelho, com o maior decote nas costas, que ela já tinha visto. Tomou um longo banho, e se arrumou como há muito tempo não fazia. Afinal, o relacionamento estava desgastado. Ela estava decidida: iria para o bar, que os dois sempre freqüentavam juntos, e ficaria com o primeiro cara, mais ou menos interessante que aparecesse.

Quando Laís abriu a porta, Mauro estava acabando de subir as escadas, com um presente nas mãos. Estava lindo, com o perfume que ela amava, como há muito tempo ele não fazia. E antes que ela dissesse qualquer coisa, ele reparou como estava linda, e falou: Que bom que gostou do que eu escrevi! Decidi parar de tentar entender, e aceitar.

Nada como o encontro de olhares.

Natália Possas