domingo, 27 de junho de 2010

Encontros

Lá, onde eu não vi,
Lá, onde eu quero,
Lá, onde eu sinto.
Lá, onde a fama é santa...

Equipe em descobertas.
Necessidades em comum dos outros.
Ainda não sabemos.

Olhares que cantam sonhos.
Vontades que alcançam, onde os olhos não tocaram a terra.
Palavras que vão seguir nas mochilas sempre abertas.
Estradas buscando fala nas imagens.
Percepções pedindo experiências.

O que sabemos?
Histórias que a menina contou.
Queremos tanto...
Da montanha, nem graças nem clemências.
Apenas olhares que contam histórias.

Natália Possas

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bom Dia

O sol saiu tarde. Mas não deixou de clarear o dia. Por alguns instantes, ele aqueceu os sorrisos e fez carinho no rosto de quem estava triste. O vento fez companhia durante toda a tarde. Impulsionava quem estava cansado, e tornava mais leve e elegante o andar de todos.

Lila reclamou do frio. Essa foi sua única percepção naquele dia. Tentou escrever. Isso aliviava um pouco. Nada. Até que saiu um poema. Ela quase apagou, mas estava desmotivada pra isso.

À margem do que eu queria escrever,
Sinto.
Sei que não me quero mais.
Escrevo.
Penso no que sou.
Choro.
Não sou nada.
Agradeço o que tenho.
Tenho mais do que sei.
Tenho mais do que mereço.
Não sei nada.
Não faço.
Não peço.
Não sei.
Tantos merecem...
Tantos não têm.
Desperdício pra mim.

De tardezinha, uma chuva bem fina limpou a poeira das folhas, e dos sapatos de quem passava. Ela temperou a chegada da noite com cheiro bom, de terra seca recebendo o beijo das gotas de chuva.

Lila reclamou do penteado estragado. Esqueceu a sombrinha em casa. Nem era um penteado. Ela só secou os cabelos de qualquer jeito pela manhã. Mesmo assim praguejou a chuva.

A noite convidou o vento de volta. Ele chegou bem de leve, e soprou pertinho de quem estava agitado, pra refrescar, acalmar...

Lila colocou o cachecol. Vestiu o casaco pra espantar o frio. As roupas pesaram sua bolsa o dia todo. Lila mandou embora o vento, e todos os carinhos do dia. Hoje suas percepções estavam encapadas, lacradas. Deu um trabalhão esconder todas, mas Lila conseguiu.

Amanhã o dia vai se aprontar todo, outra vez, e mais quantas for necessário.

Natália Possas

quarta-feira, 17 de março de 2010

Bem necessário


O instante que não acontece mais.
Eternizado...
Registro do momento que foi.
Sentidos...

Lente - olhar.
Técnica - sensibilidade.
Precisão - paciência.
Instante - horas.

O olhar do fotógrafo
Fez o outro sentir arte.
A imagem grita!
Desperta sentido.
Pede atenção.

O instante passou,
Quase ninguém viu.
O fotógrafo sabe...
A foto contou pra ele.

Poema: Natália Possas
Foto: Ramirez dos Santos

domingo, 17 de janeiro de 2010

Simples assim


Bolinhas de sabão. Os meninos falavam que era coisa de menina. Mas Carlinhos adorava se divertir com as bolhas. Ele via que elas refletiam cores, e enxergava o mundo inteiro dentro delas. E não era uma simples brincadeira, mas sim, um jeito de ver o que ele não compreendia. Carlinhos fazia muitas bolinhas, de vários tamanhos, e ficava olhando todas voarem, até o vento beijá-las, pra que pudessem se abrir, e pingar no chão gotinhas de alegria . Essa era a resposta para as coisas que ele não entendia. Não contava pra ninguém, mas, o lugar onde as gotas caíam, era modificado pra sempre: tudo ficava cheio de cor e leve, como as bolinhas de sabão.

Natália Possas

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A praticidade da internet

Aquele e-mail foi decisivo! Mauro disse que não tentaria mais entendê-la. Laís franziu a testa. Ah, e quando ela faz isso... A moça da mesa ao lado foi saindo de fininho, e comentou a cena com um colega do escritório. Outros se aproximaram e a história cresceu. Ninguém sabia do que se tratava, mas no fim do dia, Laís havia recebido vários e-mails com palavras de apoio, dos amigos de trabalho.

Seu dia foi horrível. Por mais que buscasse distração, a frase vinha à cabeça e a raiva tomava conta. Depois, surgiu uma tristeza profunda, sentimento de perda e todos os sintomas de depressão, que ela havia lido numa revista feminina. Ah, segundo a tal revista também, o próximo passo deveria ser a vingança! Então, Laís foi às compras e voltou com um vestido vermelho, com o maior decote nas costas, que ela já tinha visto. Tomou um longo banho, e se arrumou como há muito tempo não fazia. Afinal, o relacionamento estava desgastado. Ela estava decidida: iria para o bar, que os dois sempre freqüentavam juntos, e ficaria com o primeiro cara, mais ou menos interessante que aparecesse.

Quando Laís abriu a porta, Mauro estava acabando de subir as escadas, com um presente nas mãos. Estava lindo, com o perfume que ela amava, como há muito tempo ele não fazia. E antes que ela dissesse qualquer coisa, ele reparou como estava linda, e falou: Que bom que gostou do que eu escrevi! Decidi parar de tentar entender, e aceitar.

Nada como o encontro de olhares.

Natália Possas

sábado, 2 de janeiro de 2010

Parceria

Até pouco tempo, eu não imaginava que poderia escrever poesia. Muito menos, que um dos poemas viraria música. Isso aconteceu pelas mãos do DJ Melk, que tem suas composições incluídas em CD’s de outros DJ's.

O estilo? Hardstyle, um gênero relativamente novo na Europa, e no Brasil. O poema? VIDA, que foi postado neste blog em 13 de dezembro. A música, que leva o mesmo nome do texto, estreou tocada por Bioweapon, na cidade de Eindhoven, na Holanda.




Ah, e quem quer conhecer mais um pouco do trabalho do DJ Melk pode acessar:
palcomp3.com/djmelk e lucasmelk.wordpress.com

domingo, 13 de dezembro de 2009

Vida

O vento sopra melodia em dia calmo.
Os galhos, maestros regem a sinfonia natural,
Que só toca em quem sente.

Árvores fazem desenhos de folhas caídas,
No que antes era chão.
Sol, estrelas... iluminam o palco,
Que quase ninguém vê.

Os pássaros incansáveis anunciam o espetáculo!
Raro público tocado pelo simples.

Pessoas se prendem, percebendo defeitos em pessoas.
Mas o maior erro, não sentir...

Natália Possas

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O que importa

Tereza acordou bem, apesar do sonho. As imagens, que pareciam tão reais, fugiram. E as sensações eram brados em silêncio. Vestiu a habitual malha branca esfarrapada, e, nesse dia, deixou a cama por fazer. Prendeu os cabelos grisalhos e curtos com um arco velho, de plástico descascado. Não quis comer. Pela janela, com vista para o jardim simples, viu flores caídas. A madrugada foi acalantada pela chuva. O dia estava claro, sem sol. No mural de fotos, feito de cortiça, desordem. O último vento derrubou a maioria dos retratos, e sua desorganização não permitiu alterações. Havia empilhado as fotos caídas. Todas eram em preto e branco.

A sensação, que não podia ser traduzida, voltou. Atrás da cômoda de madeira havia outra fotografia caída, que já estava empoeirada. Na imagem antiga, um abraço de quem dava colo. A amparada era Dulce: menina linda, de olhos azuis brilhantes de choro, que todos evitavam. Tereza era a única que sabia transformar o brilho de lágrimas em alegria. E isso era infinitamente mais fácil do que muitos pensavam: ela sabia ouvir, enquanto os demais somente escutavam. A menina triste era sempre interrompida pelo que o outro tinha a dizer. Tereza, sempre a olhava atentamente nos olhos, enquanto o azul ficava mais brilhante e vivo, e entendia até as frases mudas. Dulce era importante ao lado da amiga.

Tereza ouviu alguém bater palmas na varanda. Era um vizinho. Homem simpático, que lhe deu uma carta, erroneamente entregue a ele. Fez questão de se desculpar pela demora na devolução. Tereza voltou ao quarto e abriu a correspondência. Nesse momento, a sensação pôde ser traduzida. Ela soltou os cabelos sem pentear, vestiu uma saia preta, que ia até os joelhos, blusa discretamente estampada, sapatilha preta, um casaco azul desbotado e saiu. Foi olhar novamente nos olhos da amiga.



Natália Possas - foto e texto

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Presente

É a primeira vez que posto algo não escrito por mim. Esse texto, que dialoga com o meu "Era uma vez", foi presente de um amigo. Ele postou em seu blog: fredfonsecaeseusalfredos.blogspot.com. Acessem, e descobrirão textos maravilhosos, que revelam várias faces de um cara interessante.

Aos passos de Natália Possas

Nada é tão previsível quanto a vontade de escrever e tão imprevisível quanto o hábito de reler os velhos escritos. É nessa aventura de releituras que misturamos nossos próprios mundos, o de hoje com o de ontem, e vemos que nos perdemos pensando se nos transformamos demais! Daí vem a "reviravolta boa" que nos organiza, direciona e relaxa. E descobrimos que o velho microfone foi deixado por nos mesmos no canto do vago palco, que agora limparemos pra bradar no volume 10 todos nossos anseios escritos!

Mãos a obra!

Alfredo Braga

sábado, 14 de novembro de 2009

Era uma vez

Inventação. Complicamento. Não existem. E daí? São compreendidas mesmo assim. Naquela tarde, e por muito tempo, alguém não entendeu o sentido do que era real, e misturou os mundos sem saber qual era o seu, sem ter entendido o outro. O imprevisível chama as sensações, traz reviravolta boa, e atrai o diferente.

Naquela tarde, e desde então, o previsível entoou seus versos, que ainda estão lá. A poesia subiu ao palco mal iluminado. E o microfone, que já não funciona tão bem, ainda está num canto sem poeira. Por pouco tempo.

Natália Possas

domingo, 1 de novembro de 2009

Despretensiosa



Esboço de idéias...
Despreocupada com impressões.
Só quero ser...
Agora!

Hum, momento especial...
Não quero me preocupar
E não estou.
É tão bom isso...

Estou apenas pra mim,
Pra um sorriso sincero,
Um gesto espontâneo.
Ah, uma festa!

Celebrar a mim!
Tudo!
Esse momento,
Essa paz,
Equilíbrio...

Mas um desequilíbrio...
Faz um bem...
Paradoxos precisam ser bem vividos!
É isso.

Ah, não se preocupe em me entender.
Apenas relaxe...

Natália Possas

domingo, 25 de outubro de 2009

É isso


Depois de alguns rabiscos na memória venho escrever algo que ainda não sei bem o quê. Posso falar das estrelas que hoje eu não vi, da lua que não está cheia, do quintal com muitas plantas, do meu mural de fotos, do que faz parte dele, ou do que eu queria que fizesse. Posso falar das festas que não fui, das flores que não recebi, dos amigos que ainda não fiz, dos caminhos que ainda não conquistei e da inspiração que não tive. Mas não decidi.

Preciso ler o que não depende só de mim pra ser escrito. Quero ser o que eu sou, com o que eu ainda vou ser, mas agora! Paciência nós aprendemos e faz bem. Mas, nem sempre é necessária. Tenho pressa de ver quem está à minha volta bem. Sei que posso ajudar com palavras, um abraço, um sorriso... mas isso, só ajuda a acalmar o coração. Quando se trata apenas de mim, me atraco com os conflitos. Se eles me deixam no chão, eu aproveito pra esticar o corpo, relaxar e alongar pra preparar um pulo.

E eu sempre arrumo um jeito de ser feliz. Mesmo quando me arrumam vários jeitos de não ser.

Natália Possas

sábado, 17 de outubro de 2009

Interpretações


Palavras podem ser apenas palavras.

Mas podem ser sentimentos,
Significado,
Sentido...
Ou a falta deles.

O que é dito, pode não fazer a menor diferença.
Pessoas dizem a todo momento,
Mas nem sempre sentem.

Muitos sentem sem falar,
Falam o que pensam sentir,
Sentem o que não sabem traduzir...

Mas nem tudo precisa de tradução.
Temos instinto.
Ele nos ajuda a realizar tanto sem sabermos...

Por isso muitas vezes vemos algo dando errado,
Lamentamos por isso.
Depois vem um acerto!
É porque antes, não tinha dado errado.

Natália Possas